20 de março de 2017

Todo Gestor é um Empreendedor

A atual revolução da informação provocou mudanças no mercado de trabalho, assim como a revolução industrial fez com os sistemas de produção do século XIX. A nova dinâmica de um mundo mais tecnológico, digital e dinâmico exige novas competências e habilidades, e, como consequência, altera a ideia do que é o sucesso profissional. Mais do que ter um emprego, a nova geração quer empreender a própria carreira, dentro de uma empresa ou por meio do próprio negócio.

Segundo pesquisa da DMRH e Cia de Talentos, 50% dos jovens querem empreender. O resultado, de acordo com a consultora de recursos humanos e sócia da Cia de Talentos, Maíra Habimorad, está relacionado a maior busca da geração Y por satisfação pessoal.  “Os jovens querem trabalhar em uma área com a qual se identifiquem. Então, nada melhor do que criar um negócio em um setor que tenham interesse”, disse em entrevista ao Exame.com. Na pesquisa, foram identificadas duas grandes necessidades na faixa etária avaliada, entre 20 e 26 anos: “vontade de realizar-se profissionalmente fazendo o que gosta e de deixar uma marca positiva no mundo”.

Talvez inspirados pelos cases de jovens talentosos que estão construindo grandes impérios no mundo da tecnologia eles acreditem que empreender seja o único caminho para a realização profissional. Mônica Barroso, professora de empreendedorismo da School Of Life e fundadora da Zoé Inova, concorda que a atual glamourização do empreendedorismo incentiva esse sonho, mas também enxerga um outro lado que é o do contexto. "O profissional de hoje não é mais aquele da era industrial e pós-industrial, que era especialista ou expert em determinado assunto. Agora, nos deparamos com uma nova geração que tem o anseio de se colocar de maneira mais multidisciplinar, criativa, sistêmica e o empreender traz muito dessas características", destacou.

Esse perfil também reflete na maneira como essa nova geração olha para outros profissionais e líderes. Uma outra pesquisa da DMRH e Cia de Talentos revelou que os fatores mais valorizados pelos jovens são empreendedorismo, capacidade de inovar, causa pela qual luta e/ou valores, e clareza de onde quer chegar e de como fazê-lo. O curioso é que esse cenário não é restrito a essa nova geração, 60% dos executivos (gerentes, diretores ou presidentes) também tem o anseio de empreender.

Isso quer dizer que o empreendedorismo faz parte do dia a dia de qualquer profissional, independente de seu estágio de carreira, e não está relacionado apenas ao ato de abrir um negócio. Mais importante do que isso é a atitude empreendedora. A vontade de ser um profissional mais criativo, inovador, influente e inspirador.


Empreendedorismo corporativo

Segundo Mônica, existe um potencial gigante de inovação dentro das organizações. "Estudos mostram que 75% das novas ideias surgem dentro do ambiente de trabalho e apenas 5% surgem daquela pessoa que está buscando uma ideia inovadora, que quer ter uma ideia", revelou. As empresas devem ficar atentas a esse potencial criativo e incentivar o compartilhamento de novas ideias. É o que faz o Grupo Fleury, uma das maiores organizações de medicina e saúde do Brasil, com 90 anos de tradição e que vive diariamente o desafio de inovar.

Eles usam diferentes plataformas para capturar os insights. Do colaborador que está na unidade de atendimento até o médico que prepara um laudo, existem canais distintos onde eles podem registrar a ideia. O projeto faz parte da realidade de todo o Grupo, além de incentivar a sugestão de insights, eles procuram envolver a organização também nas próximas etapas, como avaliação da ideia e  implantação do projeto. "Mobilizamos todas as frentes. Mais do que ter ideias que dão certo, nós queremos criar um ambiente onde as pessoas não tenham medo de sugerir e compartilhar seus insights", destacou Flavia Helena da Silva, coordenadora de pesquisa e desenvolvimento do Grupo Fleury.

Para Mônica Barroso, um ponto de partida para se chegar em uma ideia inovadora, criativa, disruptiva, não é tentar achar a solução, mas partir do problema, da frustração, do que despertou a vontade de encontrar uma solução. "É um trabalho quase antropológico. Pode partir de uma necessidade interna da própria empresa ou do cliente, da equipe, dos terceiros. É só quando a gente começa a se aprofundar no problema que as soluções vão começar a aparecer", destacou.

Para avaliar se uma vai dar certo ou não, Mônica sugere que sejam feitos pequenos experimentos, pequenas ações viáveis com os recursos disponíveis. "Dentro do ambiente empresarial, é muito importante que a empresa também abra espaço para pequenos experimentos e para a possibilidade de errar. Porque muitas dessas ideias não vão dar certo, e tudo bem, ou podem virar outras coisas que não foram pensadas inicialmente. Esse campo de experimentação, a partir de experimentos curtos, baratos, viáveis e que mantenham o movimento interno, podem ser um celeiro muito importante de inovação".

Errar faz parte da rotina de qualquer empreendedor, seja ele externo ou interno. O que diferencia um projeto que deu certo de outros que acabaram não indo para frente é a capacidade desse profissional de aprender com as falhas e se reinventar. "Muitas grandes ideias surgiram de coisas que não foram planejadas. Erros se tornaram produtos de sucesso e ideias inovadoras. Mas a nossa geração foi educada para dar respostas rápidas, corretas e não se permitir essa experimentação. Talvez por isso também tenha dificuldade de se recompor ao ter um feedback negativo. Temos que encarar o erro como uma oportunidade de aprendizado", explicou a professora de empreendedorismo.

Muitas vezes, a pessoa que tem a ideia pode não ser a melhor pessoa para implementá-la. É preciso trabalhar de forma colaborativa. "O empreendedor não é aquele que sabe tudo sobre todos os assuntos, mas é justamente aquele que tem uma percepção de si, de suas próprias habilidades, de suas qualidades e de suas fragilidades", comentou Mônica. Esse profissional deve ser capaz de entender que em determinados aspectos é melhor que busque ajuda de outras pessoas.


Gestor empreendedor

Nós sabemos que o dia a dia de atividades de um gestor de frota é desafiador a todo tempo. São muitas responsabilidades e a pressão por resultados pode muitas vezes atrapalhar a formação de um ambiente que estimule a inovação e a criatividade. Isso não quer dizer que ele não pode ser um gestor empreendedor. Pelo contrário, a mudança pode começar por esse profissional.

De acordo com Mônica, se você trabalha em um ambiente mais fechado, dentro do seu contexto, você pode experimentar pequenos ajustes, pequenas coisas, que não vão precisar da aprovação de um novo orçamento ou do envolvimento de uma equipe que não está acessível. "A minha provocação é não ficar parado por não se sentir apoiado. Se existe uma ideia, tente com aquilo que está disponível no momento", aconselha.

"Empreendedorismo é a busca constante por oportunidades independentemente dos recursos disponíveis". O conceito da Harvard Business School define como deve ser a atuação de um gestor que quer ser empreendedor, que quer ser mais criativo, inovador e promover mudanças significativas na companhia.

Edrei Carrenho, gestor de frota da Cargill, é exemplo de profissional que assumiu o protagonismo dentro da empresa. A companhia possui uma plataforma de inovação e uma das ideias que surgiu nesse canal a alguns anos foi a criação de uma ferramenta de treinamento chamada HPM (High Performance Manager). Em 2015, o gestor teve a oportunidade de participar da turma 24 e aprender algumas das lições do empreendedorismo.

No Programa, o grupo de Carrenho recebeu um business challenge: reduzir os acidentes com funcionários terceiros dentro da Cargill. "Quando isso caiu na minha mesa, eu não sabia nem por onde começar. Fiquei tão incomodado com o tema que nem consegui dormir naquela noite. E aí, discutindo isso em um grupo de 18 pessoas, começaram a surgir várias ideias e nós passamos a analisar o porquê nos preocupamos com isso. Entendemos que a gente tinha que olhar para a vida das pessoas, que o nosso propósito era salvar vidas", contou.

Eles descobriram duas principais causas de acidentes dentro da Cargill mundial, o acidente envolvendo veículo e o acidente com trabalho em altura. "Aquilo nos motivou a olhar o lado contrário da história, como trabalhar de modo diferente para que a gente pudesse evitar que essas coisas acontecessem". Isso fez com que Carrenho passasse a olhar o carro como uma ferramenta de trabalho que pode salvar vidas e uma série de mudanças começaram a ser implementadas no processo de gestão de frotas. "Revisamos a política mundial de segurança e promovemos campanhas internas para disseminar a cultura de segurança. Além disso, todos os condutores devem passar por treinamentos e-learning", contou.

Ao mesmo tempo, surgiu na companhia o projeto global de salvar vidas e acidentes zero onde o CEO mundial lançou a hashtag "pense em segurança no seu dia a dia". Isso se tornou um sucesso e o próprio CEO começa todas as reuniões falando um pouco de segurança e incentivando as pessoas a refletirem sobre o quanto eles pensaram em segurança durante o dia.

"Passamos a olhar para a gestão de frota de forma mais crítica, tentado mudar e melhorar os processos. Estamos radicalizando. Para se ter uma ideia, é terminantemente proibido dirigir usando o celular. Houve uma conversa com todos os líderes e eles se comprometeram em não ligar para o funcionário se souber que ele está no trânsito", ressaltou. Uma mudança de cultura que está refletindo nos resultados da companhia.

         Desde novembro do ano passado está ocorrendo uma redução no número de multas. "Em média recebemos 50 a 55 multas por mês dos veículos de São Paulo e, em janeiro deste ano, a média caiu para 40. Pra mim, já é uma vitória e mostra que estamos no caminho certo", revelou Carrenho.
 

Como incentivar a cultura empreendedora

O Prof. José Dornelas, especialista em empreendedorismo, destaca alguns fatores importantes para se implantar uma cultura empreendedora dentro das empresas:

  • Desenvolver uma visão empreendedora;

  • Incentivar e aprimorar a percepção da oportunidade;

  • Institucionalizar a mudança;

  • Alimentar o desejo de ser inovador;

  • Investir nas ideias das pessoas;

  • Compartilhar riscos e recompensas com os colaboradores;

  • Reconhecer que o ato de falhar é crítico, mas importante.
Fonte: Karina Constancio | PARAR Fleet Review - 10ª Edição
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